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Palavras ousadas

O meu espaço de ousadia

Palavras ousadas

O meu espaço de ousadia

O menino que eu criei - capítulo 4

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É o dia da decisão já decidida. Não permitirei que se cometa tal ultraje. A esperança é a última a morrer, e para mim ela ainda está vivinha da silva. Não tenho o direito de o abandonar, jamais o faria. Ele não teve culpa da triste desventura. Mas, mesmo que ele fosse o autor do infortúnio não me sentiria capaz de espetar a faca contrariando a vontade divina. Já não tenho mais lágrimas para derramar em seu leito, mas tenho um amor infinito guardado no meu peito. Se a cama o condenar, eu não o condeno. Se o médico o solapar, eu não vou assinar por baixo. Como poderei abandonar o homem que sempre me amou. Sim, amou… do jeito enjeitado dele, sem mimos, desconfortado, nem sempre educado, mas amou. Amou, desmaneiradamente é certo, mas foi o único que o fez. Para mim isso vale muito. As suas mãos quietas e quase geladas continuarei a beijar, quem sabe um dia as suas orbitas oculares voltam a girar e a ver-me? A porta do quarto se abre, não ouso olhar em sua direção. É o Doutor Faria, bem me parecia. Entra timidamente, estou certa que ouviu as últimas palavras que falei ás paredes brancas deste quarto escuro. Repetia-as novamente se necessário. Ainda as sinto a percorrer a minha traqueia. Se puxar por mim, vomitar-lhas-ei.

- Dona Matilde, já tem a resposta para me dar? Pergunta ele.

- Eu entendo a sua angústia, o seu sofrimento, o seu medo e a sua esperança inconsciente, mas ele não voltará a levantar-se dessa cama. Entenda isso de uma vez por todas. O seu marido está morto há quase 7 anos. Um calor brotou em mim uma loucura instantânea, que me levou a desposar a cabeça, virar-me, alinhar o meu rosto com o dele e libertar toda a minha indignação, os meus medos e até um pouco de saliva.

- Ele está vivo, e fique a saber que não vou assinar nada!

Dei por mim a tremer de alto abaixo. Viro-me novamente e solto umas lágrimas que nem eu sabia que as tinha. Consegui escutar os passos sorrateiros do doutor em direção à porta. Fiquei com a impressão que as minhas súplicas sortiram efeito no insensível profissional da saúde.

- Se até ao final da semana tudo se mantiver igual, eu mesmo mando desligar a máquina. Entenda isso. Retorquiu o Doutor.

Pelos vistos o homem não ficou impressionado com as minhas suplicas, também não é para admirar, creio que durante todos estes anos já lhe terei repetido umas milhares de vezes. Sinto que agora é sério. O Lazu não dá sinais de melhoras e há muito que me sensibilizam para o inevitável desfecho. Enxaguo o rosto, e dirijo ao Lazu palavras de encorajamento.

- Ouviste o doutor? Tens até ao final da semana para arrumares as tuas trouxas e voltares para casa. Acorda! Preciso que acordes!

Beijo as suas mãos e acaricio a sua face. Tenho que aproveitar todos estes momentos. Poderão acabar brevemente.