Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Palavras ousadas

O meu espaço de ousadia

Palavras ousadas

O meu espaço de ousadia

O menino que eu criei - capítulo 3

capa livro.jpg

Acordo arrepiado numa sala vazia e mórbida. Não sei se estou aqui a apenas algumas horas ou se já se passaram dias. Mas o meu corpo gelado diz-me que alguém se terá esquecido de mim. Não sei porquê, mas não estou importado com isso. Levanto-me, e desço cuidadosamente daquela cama que mais parece uma mesa de um matadouro. O meu corpo contorcido tem dificuldade em responder à minha tentativa de fuga. Avanço com dificuldade e dispo a batina de padeiro. Ainda bem que não há por aqui espelhos, tal o ridículo em que me encontro neste exacto momento. Tapo com as minhas mãos a ferramenta e invado a sala ao lado convicto que encontrarei algo mais ajustado para vestir este meu corpo trémulo e enrugado. Lá estava no canto da sala, uma enorme caixa de papelão carregada de moda morta. Vasculho desesperadamente e lá encontro umas calças maneirinhas e uma camisa axadrezada. Na prateleira atrás da porta encontra-se uma estante branca carregada de calçado. Não sei porquê, mas ainda perdi alguns minutos até me decidir por estas sapatilhas adidas brancas que combinaram na perfeição com a vestidura adquirida. Ainda procurei por entre a farrapada uma gravata que pudesse embelezar o figurim mas não achei. Saí daquela sala, e avancei naturalmente em direção à saída, e acreditem ou não, ninguém notou a minha fuga.

- É o país que temos, ironizei eu.

Circundei o hospital na tentativa de encontrar a minha carripana, mas nem sinal dela. Dei corda aos sapatos, ou melhor, ás sapatilhas e pus-me a caminho. Cheguei aqui abraçado à minha amada e regresso a casa sem holofotes e com a vida arruinada. O percurso faz-se em 15 minutos, mas prevejo um recorde olímpico tal o desespero e inquietude que me domina. Percorro mais ou menos 2 km e dou de caras com a minha carripana encostada à valeta.

- Que terá acontecido? Questiono-me.

Não imaginam vocês o estado deplorável em que se encontra. Dei conta de se tratar da minha viatura porque a sua cor alaranjada sempre me comprometeu. Aproximo-me dela e quase que desfaleço. A frente desaparecera e o infeliz que a tomou de assalto terá ido desta para melhor. O meu entusiasmo por saber o que terá acontecido era nenhum e resolvi prosseguir o derradeiro caminho que me levava de volta ao meu insípido lar. Finalmente cheguei. O portão velho entreaberto diz-me que alguém está cá. Quem será? Entro e vejo ao fundo do quintal a minha vizinha que simpaticamente rega as novidades. Aceno gentilmente, mas ela não responde tal o seu estado de entusiasmo ou distração. Ao aproximar-me da porta de entrada caio em mim. A partir de agora estou por minha conta. Tento gotejar algumas lágrimas, mas nem a tristeza se apodera de mim.  Deito-me no meu sofá vintage cor de escarlate e adormeço sem pestanejar. O meu sono é interrompido com vozes de alguém que se encontra no exterior. Levanto-me de fininho, aproximo-me da janela e com a delicadeza de uma “lady”, afasto ligeiramente a cortina que separa os dois mundos e observo. É o vulto de uma pessoa encadeirada.

 - Mas quem será? Interrogo-me.

Ainda não dera resposta á minha dúvida, já o dito intrometido enfiava a chave na fechadura e preparava-se para abrir a porta. Corri em direção à cave, escondi-me e sosseguei. Não sei porque reagi assim, afinal eu estava na minha casa. Apercebo-me que muitos dos objetos que me olham não fazem parte das minhas memórias. O ousado cadeirante deambula pela casa, ouço-o abrir gavetas, e a mexer em panelas. Questiono-me se durante o tempo que a casa esteve sem viva alma, alguém tomara de assalto o infortunado palácio. Ainda assim, não me mexo, apenas deixo escapar um longo e tímido suspiro. Observo que bem junto de mim se encontra um lote de jornais empilhados. Aproveito para vasculhar, mas a ousadia tornou-se num arrepiante assombro. Faço um reparo.

- Não pode ser!

Mas era. A minha carripana estava na capa do jornal. Não tenho dúvidas, reconheço aquela rapariga a milhas de distância. O estado dela não me comoveu, pois passara por ela antes de aqui chegar. Saboreio todo aquele enredo noticioso e apercebo-me que há uma vítima mortal e dois feridos em estado muito grave. No mesmo dia perdi mulher, filho e a carrinha.  As últimas palavras que consigo ler falam de um verdadeiro milagre. Não percebo, como é que este jornal de ontem parece que tem dois séculos tal o estado deplorável da sua manicure e a quantidade de pó que os reveste. Reflito melhor.

- Este jornal é de hoje! Questiono-me.

Como poderia. Observo atentamente as datas. As dúvidas acumulam-se. Esfolheio os restantes jornais energeticamente afim de encontrar mais informações, mas nada. Ao fundo da arrecadação o equivocado relógio de parede assinala dezasseis horas. A falta de pilhas estava a levar os ponteiros ao arame. Também eles ficaram esquecidos e aguardam melhores dias. Convenço-me que tenho de enfrentar a minha triste realidade. Afinal, tenho que tratar dos funerais e despedir-me daquela que sempre amei e do filho que os meus olhos nunca contemplaram. Saio de fininho pela porta que liga a arrecadação ao quintal das novidades, e serpenteio num ápice o desfiladeiro que me leva à recentemente batizada estrada da morte. O caminho torna-se finito tal a quantidade de pensamentos cruéis que agridem a minha mente. Não consigo parar de fabulizar histórias. Estou praticamente a 500 metros do local onde deparei com a minha Toyota desfeita. Num olhar mais atento vejo a minha carripana a desaparecer em cima de um robusto reboque. Aceno freneticamente, mas em vão.

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.