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Palavras ousadas

O meu espaço de ousadia

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O meu espaço de ousadia

O menino que eu criei - capítulo 2

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Finalmente chegamos ao hospital. A carripana deixou para trás um rasto de fumo preto tão intenso que o porteiro antevê o aparecimento de D. Sebastião por entre aquele anormal nevoeiro matinal. O Lazu agarra-me pela mão, ajeita a gravata que não trouxe, e arrasta-me freneticamente para o interior do edifício. A chuva ficou lá fora, mas as paredes negras anunciam as obras prometidas que nunca chegaram a avançar. A última vez que aqui estive, foi há dois anos atrás, quando o meu Lazu foi operado ao estômago, devido ao maldito elixir. Bem, que o avisei. Bastava-lhe observar o que acontece com o cabrito todos os anos para perceber que a coisa iria acabar mal. Ele refutou o aviso do doutor e por graçola ainda ofereceu ao anestesista um garrafão do dito veneno. Esbarramos em meia dúzia de utentes que estavam plantados junto à triagem. Como é de costume o Lazu, não cumprimentou ninguém, porém eu ia lançando uns bons dias que não tinham resposta, talvez devido à nossa entrada a matar e a atropelar. Não sei bem como, quando dei por mim já estava deitada numa maca que se encontrava estacionada junto ao corredor mais interior. Acho que a triagem foi feita pelo meu marido, porque a pulseira que me colocaram no pulso era especial, qual arco-íris, tinha todas as cores. Sorri, senti-me feliz e abençoada. Ele era um pouco rude, mas sempre admirei a sua naturalidade imprópria e destemida. O homem não olhava a meios para atingir os fins. Mas eu amava-o do jeito que ele era, se tivesse tempo contava-vos o que ele fez ao cão do vizinho, por este lhe ter fanado duas galinhas e três patos na noite de vinte e quatro de dezembro do ano passado. Não há certezas, mas ponho a minha mão no fogo como ele teve alguma coisa a ver com o suicídio do pobre animal. Ele e o André, o tal vizinho, não se falam desde esse dia. Bem, quase ninguém dirige a palavra ao meu Lazu. Eu devo ser das poucas, a verdade é que ainda não tive motivos sérios para o abandonar. Pelo contrário, se algo correr mal e eu for desta para melhor, acho que ele é bem capaz de cometer o mesmo ultraje que o pobre animal. As dores começaram a intensificar, creio que o meu armagedon está a chegar. Não sei porquê, mas o médico mandou-me de urgência para o bloco. Por entre a porta semiaberta, consigo ver o Lazu. Coitado do homem, transpira como um burro e continua a endireitar a maldita gravata de que se esquecera em casa. Não sei se estou mais aflita com ele se mais preocupada comigo. Porquê este alarido todo? Não me digam que vou perder outra criança?

- O que se passa com ela? – grita Lazu.

- Sim, grita. É o termo correto.

- Aguarde lá fora!  Resmunga a enfermeira de serviço.

Passam apenas cinco minutos que parecem infinitos. Lazu que nunca foi homem de tomar café, despachou dois e se fosse possível fumar naquele corredor lotado de camas, bem que virava fumador compulsivo. Os minutos passaram, as horas passaram. Sim, terminou tudo para mim.

O médico corajosamente tudo faz para salvá-la da morte. A bata branca realça a palidez do homem, enquanto que as enfermeiras atarefadamente apoiam toda aquela novela. A espera torna-se desesperante e aquele silêncio torna-se intolerável. Lazu, destemido avança pelo corredor sem destino, e tenta obter resposta para as suas intuições. O seu cérebro manipula centenas de imagens, todas elas difíceis de processar. A porta do consultório se abre, uma enfermeira sai, e curiosamente nem dá pela presença dele. O momento é delicado, e quando se preparava para invadir o consultório do doutor, ouve palavras que lhe travaram o andar e quem sabe a vida.

- Vamos perder os dois. Afirma o médico.

- Fizemos o que estava ao nosso alcance. Desdramatizou a enfermeira.

O choque foi tal, que Lazu cai sobre o chão provocando um estrondo momentâneo. O seu estado de loucura deve ter excedido o normal para o comum dos mortais, pois os seus gemidos e a sua raiva era tal, que se fizeram ouvir certamente por todos os cantos daquele hospital. O sofrimento foi tanto que o pobre homem desmaiou.