Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Palavras ousadas

O meu espaço de ousadia

Palavras ousadas

O meu espaço de ousadia

o menino que eu criei - capítulo 1

capa livro.jpg

Numa linda aldeia do “reino maravilhoso”, vivia Lázaro, homem robusto, pouco católico e um tudo ou nada desmazelado. Aparentava 70 anos, mas na verdade só tinha 50. As agruras da vida, deixaram marcas e remediavam os dias cinzentos, escuros, tenebrosos, do inverno rigoroso transmontano. Matilde, sua esposa de longa data, era o oposto dele. Mulher simples e educada, fazia das tripas coração para motivar o desmotivado marido. Nem os dois abortos prematuros que vivera impediam-na de acreditar que as lágrimas dariam lugar aos risos, e que a sua mesa de madeira maciça de acácia poderia algum dia albergar o tão desejado messias. O dia “D” estava a chegar, aquela barriga dava a entender que poderia explodir a qualquer hora. Lázaro, encosta para canto o menino de lata que tivera projetado na sua oficina de sucata instalada na arrecadação da sua ilustre vivenda. Diz Matilde que aquela estranha invenção foi consequência de 5 noites mal dormidas, e as pastilhas prescritas pelo médico de família aniquilaram a loucura do velho, que quase tornara aquele monte de chapas e parafusos numa criança real.

            - Encostei o miúdo! vá-se lá saber porque o trato assim, junto ao pipo do elixir da esperança. Um verde tinto, carrancudo, da mesma estirpe do meu marido. Só ele consegue beber aquilo. Ele e o cabrito que todos os anos matamos por altura da páscoa. A torre da Igreja ainda não tinha dado as 6 da matina e ambos já corríamos euforicamente em direção à carripana,

- Espero que pegue, retorqui.

Lázaro, só teve tempo de deitar goela abaixo um copo do elixir, até da sua gravata preta se esqueceu. Ele nunca sai de casa sem aquela maldita gravata. Deu-lha sua mãe no fatídico dia das partilhas, que Deus a tenha. De casa ao hospital são apenas 5 km que convertidos a minutos perfazem mais ou menos 30. Talvez mais. A civilização ainda aqui não chegou, e a auto estrada que nos liga à salvação é feita por terra batida e pedras soltas. Solta, também é a língua do meu marido. As cabritas do vizinho André encriptaram a vontade sagaz de acelerar a viatura aos 30 km/hora, e alguns palavrões se iam soltando enquanto a velha Toyota timidamente se desenvencilhava da última subida até ao céu. As águas tinham rebentado, e as semelhanças com o rio que corria em direção oposta eram evidentes. Estas, eram, porém, um pouco mais ingratas, pois as minhas meias novas, que calçara especialmente para esta ocasião já borrifavam água por todos os lados, até a camisola que bordei com o nome da minha cria não escapara ao infortúnio. Sim, é verdade, o Lázaro não teve tempo de colocar a sua catastrófica gravata, mas eu, antecipara esta revolução, pois a criança nesta madrugada quase que me saía pela boca, tal a vontade de conhecer esta triste vida. Não sei se o Lazu, era assim que eu carinhosamente o tratava, vai ter pedalada para esta novidade, pois se o puto for reguila como a falecida avó, então o homem vai rebentar pelas costuras, como eu estou. Ainda mal as rodas pisam terreno honesto e já dois faróis como que relâmpagos penetram as nossas entranhas, medulas e nervos. Uma névoa branca clareou aquele momento.