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Palavras ousadas

O meu espaço de ousadia

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Diário de um vírus - capítulo 5

diari de um virus.jpg

Ano 2036

06 de março

21.00

 

Hoje o dia foi de loucos. Eu e a Júlia fomos ao hospital militar colocar o dito chip. Fomos informados na véspera, e embora eu me tenha exaltado e enfurecido de nada valeu. Não nos deram alternativa. Vieram-nos buscar a casa por volta das 8h e fomos levados para um hospital de campanha criado exclusivamente para este fim. Na viagem tentamos roubar algumas informações aos soldados que nos acompanhavam, mas as suas bocas permaneceram mudas do início ao fim da viagem. As suas faces não esboçaram qualquer reação nem sentimento e isso paralisou-me ainda mais.  A Júlia não soltou qualquer palavra, sentimento ou vontade. A sua cara pálida e fria não se aterrorizou com a indelicadeza do momento. Pareceu-me que ela estava preparada para isto. Saímos da viatura militar e entramos numa enorme tenda cinza instalada no centro da praça. Dois seguranças á entrada davam o mote para o que aí vinha. Sentamo-nos ordeiramente numas cadeiras colocadas para o efeito e esperamos.

Ficamos emudecidos quando a voz do comandante Aníbal Ramos ecoa por toda a tenda.

 - Não quer porquê? Questionava ele.

Ninguém estava a perceber o que se passava, mas também ninguém ousou questionar. Os rapazes não nos iam matar a curiosidade.

A minha vez chegou. O militar abriu a porta e ambos passamos a fronteira. Bato de fuças com o tal Aníbal. Careca quanto baste, olhar medonho e nariz rebelde, são os primeiros ingredientes que sobressaíram no primeiro olhar que estabelecemos.

- Sente-se! Replicou.

E eu sentei-me evidentemente.

Ouviu o homem durante breves 5 minutos. Explicou-me as razões da necessidade de se estar a implantar nos seres humanos o chip e a marca na mão. É uma espécie de recenseamento. Ficamos cadastrados e registados num sistema global, planetário. No caso de futuras epidemias e catástrofes ou outros eventos mais ou menos explicáveis, eles saberão onde estamos e como estamos. Porque estamos e para onde vamos. Vou vos dizer. Nem sei porque houve tanto alarme. Afinal de contas é para nossa proteção. E embora não fosse obrigatório, a verdade é que não temos alternativa. Quem não o fizer é descartado e fica por sua conta e risco. Se não permitisse que me colocassem o chip era considerado para o governo como um criminoso. Não podia aceder a qualquer ajuda do estado, nem de empresas e associações publicas. Não podia comercializar nem trabalhar. Deixava de poder comprar ou vender. Imaginem que nem sequer podia ir ao supermercado fazer compras para matar a fome! Inimaginável. Assinei de pronto a autorização e em 15 minutos introduziram-me a marca e o chip. Saio prontamente e aliviado. Aguardo no autocarro militar pela Júlia e pelos restantes. Não sei porquê, mas a Júlia está demorada. Apenas falta ela, e pelas minhas contas já passou uma hora desde que entrou. O que se passará? Saberei assim que ela voltar. Mais 30 minutos passam e também passa a minha preocupação, pois a Júlia sai da tenda e já se dirige para aqui. Ela senta-se, a porta fecha e o autocarro percorre o trajeto que nos leva ao nosso leito. Entramos enfim em casa. Foi um dia diferente. Não tão complicado como reivindicaram.

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