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Palavras ousadas

O meu espaço de ousadia

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Diário de um vírus - capítulo 4

 

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Ano 2036

15 de janeiro

14.00

 Passaram aproximadamente 8 meses. Não vos tenho dito nada, porque não tem havido nada para vos dizer. Os dias tem sido autênticas réplicas. Isto do confinamento está a dar-nos cabo da cabeça, da paciência e de tudo um pouco. O governo assumiu a semana passada a muito custo, ­­­ que o país está em falência técnica. Não é para admirar, as empresas estão paradas e a torneira da Europa deixa cair apenas umas pequenas gotas que desaparecem mesmo antes de esbarrarem na terra árida e faminta. Quase todas as televisões faliram, restando o canal público que uma vez por semana transmite algumas notícias. Uma verdadeira tragédia. Já tenho saudades das parvoíces que nos acompanhava durante os serões. As discussões inúteis e fantasiosas por esta altura fariam toda a diferença. E por falar em fantasias! Esta semana fomos informados que 2 ovnis foram avistados. Um em Israel e outro nos EUA. Não sou muito crente nestas coisas, mas há quem diga que pode estar aqui a chave para o enigma relativo ao desaparecimento de pessoas. Não sei o que vocês acham, mas cá para mim não passa de mais uma invenção infundada. Devem estar ansiosos por saber novidades da minha Júlia? Pois bem, ela está diferente. Ela está mais forte e comprometida com o nosso futuro. Ainda assim, tenho que admitir que nem tudo me parece necessariamente normal. Numa altura em que a situação fez aumentar o ceticismo, ela contraria esta generalidade e tornou-se numa pessoa crente, devota e um pouco irracional, digo eu. As pessoas esqueceram-se de Deus, mas a minha Júlia diz que o encontrou. Tenho tentado tirar-lhe esta ideia do pensamento, pois acho que a culpa deste estado de coisas é dele. Quando digo isto, acreditem que acredito mesmo nisto. Mas ela não me dá troco, pelo contrário, recusa as minhas interpretações e pede-me que enfrente o Criador. Segundo ela, para o entender temos que o escutar. Mas como vou escutar alguém que não vejo, não apalpo, não sinto, e ainda por cima levou-me os meus pequenos? Será que ela está esquecida disso, ou acha que é obra de discos voadores tripulados por uns ridículos predadores de gentes. As nossas discussões tem sido infrutíferas. Temos pensamentos e prognósticos diferenciados, que comprometem quase sempre um entendimento sincero e produtivo. As convicções dela parecem ser verdadeiras, e isso preocupa-me.      

Outro assunto que vos queria contar vai deixar-vos de boca aberta. Ao que parece vamos ser obrigados a um registo global de identidade. E perguntam vocês o que raio é isto? A mesma pergunta fiz eu e fiquei a saber o mesmo, ou quase o mesmo. Dizem os entendidos que se trata de um chip que será colocado debaixo da nossa pele e que permitirá identificar-nos e localizar-nos em tempo real e com precisão. Este chip e uma marca na mão direita substituirão o cartão de cidadão. Esta nova identificação será praticamente obrigatória, pois quem não a tiver não poderá comprar nem vender nada. Isto está de loucos! O pessoal já anda chipado que chegue, não acham? Eles querem controlar tudo, e vão controlar. Com esta nova tecnologia controlarão tudo e todos. Pensem nisto.