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Palavras ousadas

O meu espaço de ousadia

Palavras ousadas

O meu espaço de ousadia

Diário de um vírus - capítulo 3

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Ano 2035

30 de abril

11.15

Estou na sala junto á janela. Ela voltou-me a falar no livro, mas só amanhã poderei sair. Estou de sentinela, pois se aquilo for mesmo o livro, tenho medo que alguém o leve. Não há pessoas nas ruas, mas sabe-se lá. O dia está ameno e para o caso até é bom, porque caso chovesse teríamos outro problema. Falei com o tufão, mas este não é um serviço para a sua natureza canina. Embora eu acredite na sua boa vontade, não acredito em super-heróis e super-cães. Hoje esta minha descrença corre a meu desfavor, porque se o bicho lá fosse, pegasse no livro e o trouxesse, seria o ideal. Seria magnifico. Mas á coisas que temos que ser nós a fazer e resolver. Não podemos estar sempre á espera que nos resolvam os problemas. Era bom, não era? Tenho que ir buscar o raio do livro. O meu medo de a desiludir não deixa alternativa. Vou passar o tempo que for necessário a observar. Passam cerca de duas horas. O relógio por esta altura marca 15h00 mais coisa menos coisa. Fico mudo. Pestanejo. Observo. Está alguém na rua! Quem será? Só pode ser alguém que perdeu o juízo! Se é apanhado incorre numa multa que nem neste mundo nem no outro tem hipótese de pagar. Pergunto novamente para mim mesmo. Quem será o maluco? Evidentemente que com todo aquele equipamento não dá para reconhecer. Ele vai em direção ao parque… Não me digam que … A minha respiração quase que para. - Não! Grito desesperado. Continuo a observar. O anormal pegou no que estava em cima do banco. E é mesmo um livro. Fico paralisado, enquanto ele calmamente o vai folheando. Volta a fechá-lo, e começa novamente a caminhar. Fico perturbado. O que vou eu dizer à Júlia? Ele continua a caminhar e vem nesta direção. Contornou o parque e parece que vem mesmo para estas bandas. Fico quieto. Não vão acreditar. Ele parou mesmo à minha frente. Está a observar-me. Que está a fazer? Quem é? O que quer? Tantas interrogações sem resposta. Ele levanta o braço com o dito livro seguro na mão. Que quer dizer isto dizer? Será que está a gozar-me? Ainda parece. Vejo-o desaparecer pela lateral do prédio. Ainda não me recompusera já a campainha de entrada deixava soar um tímido chamamento. Passam-me mil e uma coisas pela cabeça. Um segundo toque mais provocador faz-se ouvir. Dirijo-me para a porta de entrada e levanto o auscultador. Exponho-me. Do outro lado ouço estas palavras:

- Já tenho o livro.  

Fico atónito.  Era uma voz feminina. Tenho a certeza disso. Feminina e familiar. Devo estar a sonhar? Mas era a voz da minha Júlia. Corro em direção ao quarto. Entro atrevidamente e sofro as consequências disso. Quase que o ar me falta, ao ver que a cama desfeita não albergava nenhum humano. Que é feito dela? Se não estava na cama, onde estava? Paro, tento colocar as ideias no sítio, mas não consigo. É areia a mais para o meu camião. Por instantes quase que delirava. Paro. Penso, e rio-me da minha imaginação. Ela só pode estar no WC. Bato á porta e chamo por ela. Sem resposta. A resposta, porém, veio de outro lado. Ouço a porta de entrada a bater. Não pode ser! Solidifiquei. Alguém estava a abrir a porta que dá acesso ao corredor. O meu coração parou de bater. É a pessoa do parque. É a Júlia. Não consigo pronunciar uma única palavra. A minha língua evaporara. Também não sei se deva irritar-me, se dar pulos de alegria. Observo apenas. Ela colocou o livro no armário de desinfeção. Despe o fato e tudo o mais e vai tomar um banho. Enquanto ela esfrega toda a sua ousadia, eu fico a pensar em tudo aquilo. Sim, eu e o tufão estávamos de boca aberta, e o caso definitivamente não era para menos.