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Palavras ousadas

O meu espaço de ousadia

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Diário de um vírus - capítulo 2

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Ano 2035

29 de abril

10.00

 Ela hoje faz 51 anos. Já lhe dei os parabéns. Timidamente abriu os olhos e esboçou um sorriso. As rosas ainda se encontram ali mesmo ao lado dela. Os efeitos que eu tinha prognosticado não foram muito notórios, ainda assim, quero acreditar que bem lá no fundo lhe terá agitado a crença e a vontade de superar desta condição. Sei que no dia que tivermos uma resposta para o sucedido ela se levantará. Preocupa-me não saber se esse dia alguma vez chegará. Tenho as minhas sinceras dúvidas. Este parecia ser mais um dia como os outros, tirando o facto de termos uma aniversariante cá por casa, mas não. Ela voltou a falar. Não foi muito, mas falou. Também eu fiquei surpreso, não era para menos. Contou-me que tivera um sonho, e aqui é que a porca torce o rabo. Sonhou que alguém lhe dera um livro, e o colocou propositadamente no banco de jardim em frente ao nosso prédio. Pediu-me que o fosse buscar. Ao princípio vou-vos ser sincero, não liguei patavina ao que ela dissera, um bocado de loucura nunca fez mal a ninguém, e eu estava feliz por vê-la soltar algumas palavras e até completar umas quantas frases, sem muita lógica é certo, mas conta a intenção. Como sabia ela que que aquele sonho era real? A pobre mulher mal tirou os pés da cama nestes últimos meses. E só o faz algumas vezes para dar conta das suas necessidades primárias. Algumas vezes até disso se esqueceu. Para sorte minha e dela, já improvisei um resguardo afim de evitar que o colchão faça as malas e parta para outras "pastagens". Não o poderia censurar. Ela adormeceu. Fiquei alguns minutos a confrontar as palavras dela à luz da minha sanidade mental. Foi uma luta renhida. Como tu estás minha querida, sussurrei. Levantei-me da cadeira, desviei ligeiramente o cortinado castanho, robusto e pingão, e direcionei o meu olhar em direção ao parque. Onde estás livrinho, ironizei eu, enquanto varri todos os cantos daquele parque com o meu olhar. O parque tem 6 bancos, se o livro estiver num deles, não vai ser difícil descortiná-lo. Observei. No 3 banco a partir da entrada do parque há de facto algo em cima do banco, mas não posso afirmar que seja um livro. A distância é considerável e os cinquentas já me trouxeram umas pitadas de miopia. Só tinha uma hipótese. Ir verificar. O problema é que só na terça-feira posso ir lá, e hoje ainda é domingo. E se aquilo for mesmo um livro? Quem o deixaria ali? Acho que já estou a delirar.