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Palavras ousadas

O meu espaço de ousadia

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Diário de um vírus - capítulo 1

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Ano 2035

24 de abril

08.10

Nasce um novo dia. Olho pela janela do meu quarto, e tudo parece inevitavelmente igual. O vazio há muito que tomou conta das ruas, e este novo aurora, não promete novidades. Embora tente raciocinar, a verdade é que tremo dos pés à cabeça, o medo apoderou-se de mim e de toda a humanidade.

A razão perdeu-se no tempo, e ninguém parece encontrar o fio à meada, nem sequer explicar o que se passou. E agora. Que futuro nos resta. Já não consigo suportar o estado das coisas, nem segurar dentro de mim sentimentos. A Júlia, minha esposa, tem 5 semanas que não diz uma palavra. O leito dela já não consegue conter as lágrimas e a tristeza. Não é para menos. Quem consegue viver nestas circunstâncias? Quem consegue mover-se sem que primeiro lhe seja explicado o que é feito dos nossos filhos? Quem explica? Quem?

Os barulhos das sirenes ecoam nos céus, nos próximos dias ninguém sairá à rua. Não estão a perceber, eu explico. Desde que todas as crianças da humanidade desapareceram, e ao que dizem alguns adultos, os governos mundiais, desinfetam as ruas, aldeias e cidades com um produto chamado NHS666. Segundo os entendidos trata-se de uma arma química que destrói o vírus, recentemente evoluído para a extirpe 300, evitando que se continue a desenvolver. Dizem eles que o vírus está relacionado com o desaparecimento. Não dá para acreditar. O vírus mata um homem adulto em 48h. Imaginem. Para evitarmos o contágio estamos impedidos de sair. Só o exército pode circular nas estradas, e são eles que estão encarregados de nos trazer os bens essenciais. Eles aqui passam à terça-feira entre as 9 e as 10h. Tenho que me preparar pois hoje é terça-feira, véspera do dia da Liberdade. Véspera da liberdade perdida. Podem achar estranho, mas o facto de ir à rua levantar as minhas compras considera-se por estes dias num ato heroico. Se vissem o equipamento que é necessário, ficavam surpreendidos. As máscaras por si só não servem para coisa nenhuma, e quando pousamos os pés na rua, paradoxalmente o sentimento é comparável ao pisar a lua de Armstrong. Sairmos sem este equipamento é como lançarmo-nos ao mar com uma mó de moinho presa ao pescoço. É um autêntico suicídio. Preparo-me cuidadosamente. Luvas, capacete, fato e por fim as botas impermeáveis. Faltam 5 minutos para a hora. Vou descer. Saio cuidadosamente, pois uma simples queda por esta altura, seria um contratempo medonho e dificilmente recuperável. Desço um a um os 45 degraus que me levam á rua. Já os contei centenas de vezes. Neste momento estou no ponto de encontro. Também estão aqui o Antunes da cooperativa e o André Paladares do extinto BCP. Estamos a 20 metros de distância uns dos outros. Este distanciamento é crucial. Todos respeitam escrupulosamente. O exército está a chegar. Consigo ver a coluna de camiões no fim da avenida. Normalmente são 5 camiões carregados exclusivamente de alimentos. As compras e os pagamentos são feitos online, agora só temos de fazer a recolha. Hoje, para além da fruta, do pão, do leite, das conservas e da carne, também mandei vir um ramo de rosas para oferecer à minha Júlia. Ela faz anos no Domingo e eu preciso de a mimar e animar. Se não o fizer é certo que também a vou perder. Não sei quanto tempo mais ela vai aguentar. Ela come quase nada. E o nada ás vezes é mesmo nada. Embora saiba que arrisco uma coima por ter pedido as rosas, bem não essencial, a verdade é que nesta altura vale a pena correr o risco. Prefiro perder alguns alimentos e dar-lhe vida. Os camiões chegaram. Tenho que esperar que chamem por mim. Chamaram, aqui vou eu. Percorro os poucos metros e dirijo-me ás traseiras do veículo. Dois soldados armados, protegem a viatura, enquanto que outros dois distribuem. Estico os braços e recolho as compras. Normalmente os soldados, revistam os sacos, hoje por mero acaso não o fizeram. Agradeço com uma pequena vénia, o trabalho dos nossos soldados e dirijo-me prontamente para casa. Só quando chegar lá é que saberei se tudo o que comprei está conforme, e se as rosas vieram. Bato a porta e tranco. Coloco os sacos no armário de desinfeção e vou tomar um comprometido banho. As roupas terão que ser lavadas a 60 graus. É esta a sina de quem sai á rua. Apreço-me mais do que o costume no banho, visto umas calças, uma t´shirt, calço umas meias, e corro em direção ao armário. Os sacos têm que permanecer lá dentro 1 hora, mas hoje não vou ser tão picuinhas. Abro o armário, e coloco os sacos em cima da mesa da cozinha. Retiro um a um os produtos comprados. O leite está, as conservas aqui, o pão também está. Abro o outro saco. Mal acabo se o fazer dou de caras com imaginem o quê? Não. O pão! Mas sim, as rosas estavam logo ao lado. O meu rosto iluminou-se, pois eram as rosas mais belas que eu alguma vez tinha visto. Ela merecia. Fui buscar uma pequena jarra que se encontrava no fundo da prateleira junto ao forno, retiro o pó e encho-a de vida. A água é vida. Serpenteio o Tufão que quase me subia pelas pernas e caminho em direção ao quarto. Abro a porta e sorrateiramente coloco a jarra em cima da mesinha cabeceira, mesmo em frente á cara pálida e desnutrida da minha amada. Quando ela abrir um dos seus olhos ficará curada ao comtemplar estas rosas. Esta foi a minha ideia, e eu vou acreditar. Ela só faz anos no domingo, mas eu tenho medo que seja tarde de mais. Quanto mais cedo avivar a sua alma, mais cedo a terei de volta. Saio do quarto, lá está ele a sorrir para mim novamente. Não vos tive tempo de o apresentar. O tufão é o nosso rafeiro. Um cão sem pedigree, mas com muita alma. Algo, que por aqui faz verdadeira falta. Ele tem sido o nosso brinquedo, o nosso companheiro e o nosso amigo. Desculpem a comparação, mas ele tem uma coisa boa em relação ao comum dos mortais, fala pouco. As nossas conversas são mais monólogos. Eu falo, choro, descomponho-me e ele escuta, observa e ás vezes também chora. Tem dias em que ele reage energicamente. O seu latir ouve-se a quilómetros de distância. Quem não gosta muito da conversa é o vizinho de cima que num destes dias, ao ir buscar as suas compras á rua, teve a gentileza de colocar um recado por baixo da porta. A nota era perentória e incisiva. Cala o cão. E ele calou-se depois de ambos nos termos rido durante uma hora. O bicho adormeceu e eu também. Nesse dia nem fui à cama. Fiquei no sofá aquecido pelo meu companheiro. Embora o nome do animal seja forte, a verdade é que os dois nada têm em comum. O pobre coitado de tufão não tem nada. As orelhas retorcidas e descaídas dão-lhe um ar engraçado, razão pela qual a minha mulher me convenceu a trazê-lo para casa. Sim, foi ideia dela. Dela e das crianças. Faltaram-me as palavras. Desculpem. Acontece-me quando falo neles. Sim, eles, há muito que nos pediam um animal de estimação. Eu nunca fui dado a isso, e a nossa casa já era pequena para albergar mais um condómino. Os pequenos convenceram-nos e hoje sinto-me feliz por isso. Ele tem sido a alegria e a distração que ambos precisamos, e não sei como, mas ele ainda nos vai surpreender.