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Palavras ousadas

O meu espaço de ousadia

Palavras ousadas

O meu espaço de ousadia

Dia da mãe

Hoje é o teu dia. Todos os dias que vivemos são em parte teus. Quis Deus dar-nos uma mãe. Hoje lhe agradecemos por nos ter unido no teu ventre. Ser mãe é fácil. Ser uma verdadeira mãe é graciosidade e particular responsabilidade. Ser mãe é saber amar. Num dia em que um suposto pai e uma falsa mãe assassinaram uma criança, ficamos a perceber que há mulheres com título de mães que deviam ser enforcadas na sua própria maldade, e pais que na sua perturbante indecência maltratam sexualmente os pequeninos, deveriam sucumbir. Por todas as razões. Amo-te mãe.

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A última chamada - homenagem

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A última chamada

Homenagem a todos os profissionais.

 29 de março de 2020

 Hoje liguei à minha esposa. Não tenho alternativa. O que se passa, ultrapassou as piores previsões. Não fazem ideia dos riscos que os profissionais de saúde estão a passar. Só hoje morreram nas minhas mãos 3 pessoas. Pessoas que como tu e eu tinham sonhos, família e vida. Para eles parece que tudo terminou. Não posso correr o risco de infetar com este vírus aqueles que mais amo, nem que para isso tenha que os abandonar, que me afastar deles.

A minha esposa compreendeu, mas a sua terna voz emudeceu quando lhe pedi para explicar a situação aos miúdos.

- Diz-lhes que fui viajar em trabalho, argumentei.

Do outro lado não obtive resposta, apenas um longo e silencioso choro, de alguém que verdadeiramente me amava e estava a sofrer. Sentia as suas lágrimas a escorrer pela sua face, tal era o desnudo dos nossos sentimentos e a imprevisibilidade do nosso futuro. Mesmo afastados a mais de cem quilómetros, conseguia sentir o toque da sua mão na minha pele. Não conseguia desligar a chamada com medo que o momento terminasse. Confortamo-nos com as mais belas palavras que possais imaginar, amamo-nos, e prometi que voltava para os abraçar. Quando ela desligou, um aperto ultrajou a minha alma e aniquilou o meu entusiasmo. Deitei-me na cama e chorei, como nunca o fizera. A minha dor era maior por saber que ela estava obrigada a enfrentar esta situação sem recurso à minha ajuda. As situações pioram, quando não podemos fazer nada. Eu era esse nada.

Acordo no dia seguinte com outro ânimo e depois de um banho reconfortante, com outra roupa. Visto umas calças de ganga e uma camisa cinzenta, calço as sapatilhas brancas, e corro em direção ao hospital. Aluguei um t1 aqui perto, mas como abusei no banho, tenho que me apressar. Por esta altura, a minha esposa e os meus filhos tiveram que passar para segundo plano. Agora, a minha família é esta, e muito que eles precisam de mim. Estou pronto se necessário a dar a minha vida por eles. Como dizia um antigo responsável pelo hospital de S. João, “o nosso patrão não é o estado Português. O nosso patrão é o doente”. Enquanto articulava estes pensamentos, nem dei conta que já estava cá dentro. Equipei-me a rigor. Luvas, mascaras, touca, fato impermeável e botas. Os meus colegas como de costume tiraram umas selfies para mais tarde postarmos. Pelo caminho, já tinha recebido os bons dias dos meus pequenos. Eles são a almofada de vida que eu preciso e não dispenso. A porta vai-se abrir. Medi a temperatura e está normal. Olhei-me ao espelho e pareço um anormal, salvo seja. Vou entrar são, mas não sei como voltarei. Este medo sempre me invade neste momento, mas eu sou mais forte do que ele, resisto-lhe e avanço prontamente. O dia vai ser intenso. Já foram reportados mais dois mortos desde as 6h. As caras novas e nervosas por aqui são sempre muitas. Por um lado, é bom, por outro nem tanto, porque é sinal que a doença não está a abrandar, e, por conseguinte, nós também tão cedo poderemos desacelerar. A dona Inácia é um caso de sucesso. Esteve para ir desta para melhor, mas os seus 85 anos e a sua gana de viver promoveram uma recuperação sem paralelo, sem precedentes e sem holofotes. Este local está interdito aos repórteres da graça e da desgraça. Os atores aqui sofrem sem fingimento e os duplos são eles mesmos. Quem superar esta adversidade, está pronto para enfrentar o mais bruto dos adversários. Quem se deitar nesta cama e se erguer para enfrentar a próxima curva, estará mais perto que o Miguel Oliveira de vencer uma corrida. Esta corrida é para a vida. Esta corrida ninguém a pode perder.

Paro prontamente o diagnóstico e ajudo os enfermeiros a virar o Sr. Raúl. Esta intervenção salvou-lhe a vida por uns instantes. Os profissionais fazem todos os procedimentos para salvá-lo. Infelizmente não há nada que se possa fazer. O vírus venceu esta batalha. Apenas o suor e a tristeza não sucumbiram ao momento. O desejo é vencer a guerra, mesmo perdendo algumas batalhas. Fico pensativo, irado e revoltado. Continuo.  A cama 5 está ocupada com o Sr. Andrade, homem de meia idade, robusto e falador. O homem tem pouco jeito para as anedotas, ainda assim vai roubando alguma atenção, e despojando alguma inconveniência quando lhe sai uma mais maliciosa. O homem no fundo tem bom coração, mas os seus pulmões estão a atravessar o purgatório. Os médicos creem não haver solução para o comediante, mas a esperança por cá é a última a morrer. É mau sinal se amanhã não se ouvirem gargalhadas desta sala. O meu turno chegou ao fim. Entre mortos e feridos, eu e quase todos sobrevivemos.

Foram semanas de luta.

Vontades e desejos substituídos por necessidades e preocupações. Jantares em família por vidas em jogo.

Um lar por um hospital,

uma vida por muitas vidas.

Eu dei tudo de mim.

Eles deram tudo por mim.

 

Obrigado a todos os profissionais de saúde.

 

Caro leitor, o autor desta carta faleceu ontem nas mãos da infeção covid 19. Entrou no hospital ás 8h do dia 29 de março, depois de ser diagnosticado positivo. A família só soube do seu estado grave, duas horas antes da sua partida. A equipa que com ele trabalhou congratula-se com a sua bravura, responsabilidade e bondade.

Deu a sua vida e perdeu tudo,

Perdeu tudo para salvar muitos.

Obrigado.   

Diário de um vírus - capítulo 3

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Ano 2035

30 de abril

11.15

Estou na sala junto á janela. Ela voltou-me a falar no livro, mas só amanhã poderei sair. Estou de sentinela, pois se aquilo for mesmo o livro, tenho medo que alguém o leve. Não há pessoas nas ruas, mas sabe-se lá. O dia está ameno e para o caso até é bom, porque caso chovesse teríamos outro problema. Falei com o tufão, mas este não é um serviço para a sua natureza canina. Embora eu acredite na sua boa vontade, não acredito em super-heróis e super-cães. Hoje esta minha descrença corre a meu desfavor, porque se o bicho lá fosse, pegasse no livro e o trouxesse, seria o ideal. Seria magnifico. Mas á coisas que temos que ser nós a fazer e resolver. Não podemos estar sempre á espera que nos resolvam os problemas. Era bom, não era? Tenho que ir buscar o raio do livro. O meu medo de a desiludir não deixa alternativa. Vou passar o tempo que for necessário a observar. Passam cerca de duas horas. O relógio por esta altura marca 15h00 mais coisa menos coisa. Fico mudo. Pestanejo. Observo. Está alguém na rua! Quem será? Só pode ser alguém que perdeu o juízo! Se é apanhado incorre numa multa que nem neste mundo nem no outro tem hipótese de pagar. Pergunto novamente para mim mesmo. Quem será o maluco? Evidentemente que com todo aquele equipamento não dá para reconhecer. Ele vai em direção ao parque… Não me digam que … A minha respiração quase que para. - Não! Grito desesperado. Continuo a observar. O anormal pegou no que estava em cima do banco. E é mesmo um livro. Fico paralisado, enquanto ele calmamente o vai folheando. Volta a fechá-lo, e começa novamente a caminhar. Fico perturbado. O que vou eu dizer à Júlia? Ele continua a caminhar e vem nesta direção. Contornou o parque e parece que vem mesmo para estas bandas. Fico quieto. Não vão acreditar. Ele parou mesmo à minha frente. Está a observar-me. Que está a fazer? Quem é? O que quer? Tantas interrogações sem resposta. Ele levanta o braço com o dito livro seguro na mão. Que quer dizer isto dizer? Será que está a gozar-me? Ainda parece. Vejo-o desaparecer pela lateral do prédio. Ainda não me recompusera já a campainha de entrada deixava soar um tímido chamamento. Passam-me mil e uma coisas pela cabeça. Um segundo toque mais provocador faz-se ouvir. Dirijo-me para a porta de entrada e levanto o auscultador. Exponho-me. Do outro lado ouço estas palavras:

- Já tenho o livro.  

Fico atónito.  Era uma voz feminina. Tenho a certeza disso. Feminina e familiar. Devo estar a sonhar? Mas era a voz da minha Júlia. Corro em direção ao quarto. Entro atrevidamente e sofro as consequências disso. Quase que o ar me falta, ao ver que a cama desfeita não albergava nenhum humano. Que é feito dela? Se não estava na cama, onde estava? Paro, tento colocar as ideias no sítio, mas não consigo. É areia a mais para o meu camião. Por instantes quase que delirava. Paro. Penso, e rio-me da minha imaginação. Ela só pode estar no WC. Bato á porta e chamo por ela. Sem resposta. A resposta, porém, veio de outro lado. Ouço a porta de entrada a bater. Não pode ser! Solidifiquei. Alguém estava a abrir a porta que dá acesso ao corredor. O meu coração parou de bater. É a pessoa do parque. É a Júlia. Não consigo pronunciar uma única palavra. A minha língua evaporara. Também não sei se deva irritar-me, se dar pulos de alegria. Observo apenas. Ela colocou o livro no armário de desinfeção. Despe o fato e tudo o mais e vai tomar um banho. Enquanto ela esfrega toda a sua ousadia, eu fico a pensar em tudo aquilo. Sim, eu e o tufão estávamos de boca aberta, e o caso definitivamente não era para menos.