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Palavras ousadas

O meu espaço de ousadia

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O meu espaço de ousadia

Diário de um vírus - capítulo 2

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Ano 2035

29 de abril

10.00

 Ela hoje faz 51 anos. Já lhe dei os parabéns. Timidamente abriu os olhos e esboçou um sorriso. As rosas ainda se encontram ali mesmo ao lado dela. Os efeitos que eu tinha prognosticado não foram muito notórios, ainda assim, quero acreditar que bem lá no fundo lhe terá agitado a crença e a vontade de superar desta condição. Sei que no dia que tivermos uma resposta para o sucedido ela se levantará. Preocupa-me não saber se esse dia alguma vez chegará. Tenho as minhas sinceras dúvidas. Este parecia ser mais um dia como os outros, tirando o facto de termos uma aniversariante cá por casa, mas não. Ela voltou a falar. Não foi muito, mas falou. Também eu fiquei surpreso, não era para menos. Contou-me que tivera um sonho, e aqui é que a porca torce o rabo. Sonhou que alguém lhe dera um livro, e o colocou propositadamente no banco de jardim em frente ao nosso prédio. Pediu-me que o fosse buscar. Ao princípio vou-vos ser sincero, não liguei patavina ao que ela dissera, um bocado de loucura nunca fez mal a ninguém, e eu estava feliz por vê-la soltar algumas palavras e até completar umas quantas frases, sem muita lógica é certo, mas conta a intenção. Como sabia ela que que aquele sonho era real? A pobre mulher mal tirou os pés da cama nestes últimos meses. E só o faz algumas vezes para dar conta das suas necessidades primárias. Algumas vezes até disso se esqueceu. Para sorte minha e dela, já improvisei um resguardo afim de evitar que o colchão faça as malas e parta para outras "pastagens". Não o poderia censurar. Ela adormeceu. Fiquei alguns minutos a confrontar as palavras dela à luz da minha sanidade mental. Foi uma luta renhida. Como tu estás minha querida, sussurrei. Levantei-me da cadeira, desviei ligeiramente o cortinado castanho, robusto e pingão, e direcionei o meu olhar em direção ao parque. Onde estás livrinho, ironizei eu, enquanto varri todos os cantos daquele parque com o meu olhar. O parque tem 6 bancos, se o livro estiver num deles, não vai ser difícil descortiná-lo. Observei. No 3 banco a partir da entrada do parque há de facto algo em cima do banco, mas não posso afirmar que seja um livro. A distância é considerável e os cinquentas já me trouxeram umas pitadas de miopia. Só tinha uma hipótese. Ir verificar. O problema é que só na terça-feira posso ir lá, e hoje ainda é domingo. E se aquilo for mesmo um livro? Quem o deixaria ali? Acho que já estou a delirar. 

Diário de um vírus - capítulo 1

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Ano 2035

24 de abril

08.10

Nasce um novo dia. Olho pela janela do meu quarto, e tudo parece inevitavelmente igual. O vazio há muito que tomou conta das ruas, e este novo aurora, não promete novidades. Embora tente raciocinar, a verdade é que tremo dos pés à cabeça, o medo apoderou-se de mim e de toda a humanidade.

A razão perdeu-se no tempo, e ninguém parece encontrar o fio à meada, nem sequer explicar o que se passou. E agora. Que futuro nos resta. Já não consigo suportar o estado das coisas, nem segurar dentro de mim sentimentos. A Júlia, minha esposa, tem 5 semanas que não diz uma palavra. O leito dela já não consegue conter as lágrimas e a tristeza. Não é para menos. Quem consegue viver nestas circunstâncias? Quem consegue mover-se sem que primeiro lhe seja explicado o que é feito dos nossos filhos? Quem explica? Quem?

Os barulhos das sirenes ecoam nos céus, nos próximos dias ninguém sairá à rua. Não estão a perceber, eu explico. Desde que todas as crianças da humanidade desapareceram, e ao que dizem alguns adultos, os governos mundiais, desinfetam as ruas, aldeias e cidades com um produto chamado NHS666. Segundo os entendidos trata-se de uma arma química que destrói o vírus, recentemente evoluído para a extirpe 300, evitando que se continue a desenvolver. Dizem eles que o vírus está relacionado com o desaparecimento. Não dá para acreditar. O vírus mata um homem adulto em 48h. Imaginem. Para evitarmos o contágio estamos impedidos de sair. Só o exército pode circular nas estradas, e são eles que estão encarregados de nos trazer os bens essenciais. Eles aqui passam à terça-feira entre as 9 e as 10h. Tenho que me preparar pois hoje é terça-feira, véspera do dia da Liberdade. Véspera da liberdade perdida. Podem achar estranho, mas o facto de ir à rua levantar as minhas compras considera-se por estes dias num ato heroico. Se vissem o equipamento que é necessário, ficavam surpreendidos. As máscaras por si só não servem para coisa nenhuma, e quando pousamos os pés na rua, paradoxalmente o sentimento é comparável ao pisar a lua de Armstrong. Sairmos sem este equipamento é como lançarmo-nos ao mar com uma mó de moinho presa ao pescoço. É um autêntico suicídio. Preparo-me cuidadosamente. Luvas, capacete, fato e por fim as botas impermeáveis. Faltam 5 minutos para a hora. Vou descer. Saio cuidadosamente, pois uma simples queda por esta altura, seria um contratempo medonho e dificilmente recuperável. Desço um a um os 45 degraus que me levam á rua. Já os contei centenas de vezes. Neste momento estou no ponto de encontro. Também estão aqui o Antunes da cooperativa e o André Paladares do extinto BCP. Estamos a 20 metros de distância uns dos outros. Este distanciamento é crucial. Todos respeitam escrupulosamente. O exército está a chegar. Consigo ver a coluna de camiões no fim da avenida. Normalmente são 5 camiões carregados exclusivamente de alimentos. As compras e os pagamentos são feitos online, agora só temos de fazer a recolha. Hoje, para além da fruta, do pão, do leite, das conservas e da carne, também mandei vir um ramo de rosas para oferecer à minha Júlia. Ela faz anos no Domingo e eu preciso de a mimar e animar. Se não o fizer é certo que também a vou perder. Não sei quanto tempo mais ela vai aguentar. Ela come quase nada. E o nada ás vezes é mesmo nada. Embora saiba que arrisco uma coima por ter pedido as rosas, bem não essencial, a verdade é que nesta altura vale a pena correr o risco. Prefiro perder alguns alimentos e dar-lhe vida. Os camiões chegaram. Tenho que esperar que chamem por mim. Chamaram, aqui vou eu. Percorro os poucos metros e dirijo-me ás traseiras do veículo. Dois soldados armados, protegem a viatura, enquanto que outros dois distribuem. Estico os braços e recolho as compras. Normalmente os soldados, revistam os sacos, hoje por mero acaso não o fizeram. Agradeço com uma pequena vénia, o trabalho dos nossos soldados e dirijo-me prontamente para casa. Só quando chegar lá é que saberei se tudo o que comprei está conforme, e se as rosas vieram. Bato a porta e tranco. Coloco os sacos no armário de desinfeção e vou tomar um comprometido banho. As roupas terão que ser lavadas a 60 graus. É esta a sina de quem sai á rua. Apreço-me mais do que o costume no banho, visto umas calças, uma t´shirt, calço umas meias, e corro em direção ao armário. Os sacos têm que permanecer lá dentro 1 hora, mas hoje não vou ser tão picuinhas. Abro o armário, e coloco os sacos em cima da mesa da cozinha. Retiro um a um os produtos comprados. O leite está, as conservas aqui, o pão também está. Abro o outro saco. Mal acabo se o fazer dou de caras com imaginem o quê? Não. O pão! Mas sim, as rosas estavam logo ao lado. O meu rosto iluminou-se, pois eram as rosas mais belas que eu alguma vez tinha visto. Ela merecia. Fui buscar uma pequena jarra que se encontrava no fundo da prateleira junto ao forno, retiro o pó e encho-a de vida. A água é vida. Serpenteio o Tufão que quase me subia pelas pernas e caminho em direção ao quarto. Abro a porta e sorrateiramente coloco a jarra em cima da mesinha cabeceira, mesmo em frente á cara pálida e desnutrida da minha amada. Quando ela abrir um dos seus olhos ficará curada ao comtemplar estas rosas. Esta foi a minha ideia, e eu vou acreditar. Ela só faz anos no domingo, mas eu tenho medo que seja tarde de mais. Quanto mais cedo avivar a sua alma, mais cedo a terei de volta. Saio do quarto, lá está ele a sorrir para mim novamente. Não vos tive tempo de o apresentar. O tufão é o nosso rafeiro. Um cão sem pedigree, mas com muita alma. Algo, que por aqui faz verdadeira falta. Ele tem sido o nosso brinquedo, o nosso companheiro e o nosso amigo. Desculpem a comparação, mas ele tem uma coisa boa em relação ao comum dos mortais, fala pouco. As nossas conversas são mais monólogos. Eu falo, choro, descomponho-me e ele escuta, observa e ás vezes também chora. Tem dias em que ele reage energicamente. O seu latir ouve-se a quilómetros de distância. Quem não gosta muito da conversa é o vizinho de cima que num destes dias, ao ir buscar as suas compras á rua, teve a gentileza de colocar um recado por baixo da porta. A nota era perentória e incisiva. Cala o cão. E ele calou-se depois de ambos nos termos rido durante uma hora. O bicho adormeceu e eu também. Nesse dia nem fui à cama. Fiquei no sofá aquecido pelo meu companheiro. Embora o nome do animal seja forte, a verdade é que os dois nada têm em comum. O pobre coitado de tufão não tem nada. As orelhas retorcidas e descaídas dão-lhe um ar engraçado, razão pela qual a minha mulher me convenceu a trazê-lo para casa. Sim, foi ideia dela. Dela e das crianças. Faltaram-me as palavras. Desculpem. Acontece-me quando falo neles. Sim, eles, há muito que nos pediam um animal de estimação. Eu nunca fui dado a isso, e a nossa casa já era pequena para albergar mais um condómino. Os pequenos convenceram-nos e hoje sinto-me feliz por isso. Ele tem sido a alegria e a distração que ambos precisamos, e não sei como, mas ele ainda nos vai surpreender.

O menino que eu criei - capítulo 4

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É o dia da decisão já decidida. Não permitirei que se cometa tal ultraje. A esperança é a última a morrer, e para mim ela ainda está vivinha da silva. Não tenho o direito de o abandonar, jamais o faria. Ele não teve culpa da triste desventura. Mas, mesmo que ele fosse o autor do infortúnio não me sentiria capaz de espetar a faca contrariando a vontade divina. Já não tenho mais lágrimas para derramar em seu leito, mas tenho um amor infinito guardado no meu peito. Se a cama o condenar, eu não o condeno. Se o médico o solapar, eu não vou assinar por baixo. Como poderei abandonar o homem que sempre me amou. Sim, amou… do jeito enjeitado dele, sem mimos, desconfortado, nem sempre educado, mas amou. Amou, desmaneiradamente é certo, mas foi o único que o fez. Para mim isso vale muito. As suas mãos quietas e quase geladas continuarei a beijar, quem sabe um dia as suas orbitas oculares voltam a girar e a ver-me? A porta do quarto se abre, não ouso olhar em sua direção. É o Doutor Faria, bem me parecia. Entra timidamente, estou certa que ouviu as últimas palavras que falei ás paredes brancas deste quarto escuro. Repetia-as novamente se necessário. Ainda as sinto a percorrer a minha traqueia. Se puxar por mim, vomitar-lhas-ei.

- Dona Matilde, já tem a resposta para me dar? Pergunta ele.

- Eu entendo a sua angústia, o seu sofrimento, o seu medo e a sua esperança inconsciente, mas ele não voltará a levantar-se dessa cama. Entenda isso de uma vez por todas. O seu marido está morto há quase 7 anos. Um calor brotou em mim uma loucura instantânea, que me levou a desposar a cabeça, virar-me, alinhar o meu rosto com o dele e libertar toda a minha indignação, os meus medos e até um pouco de saliva.

- Ele está vivo, e fique a saber que não vou assinar nada!

Dei por mim a tremer de alto abaixo. Viro-me novamente e solto umas lágrimas que nem eu sabia que as tinha. Consegui escutar os passos sorrateiros do doutor em direção à porta. Fiquei com a impressão que as minhas súplicas sortiram efeito no insensível profissional da saúde.

- Se até ao final da semana tudo se mantiver igual, eu mesmo mando desligar a máquina. Entenda isso. Retorquiu o Doutor.

Pelos vistos o homem não ficou impressionado com as minhas suplicas, também não é para admirar, creio que durante todos estes anos já lhe terei repetido umas milhares de vezes. Sinto que agora é sério. O Lazu não dá sinais de melhoras e há muito que me sensibilizam para o inevitável desfecho. Enxaguo o rosto, e dirijo ao Lazu palavras de encorajamento.

- Ouviste o doutor? Tens até ao final da semana para arrumares as tuas trouxas e voltares para casa. Acorda! Preciso que acordes!

Beijo as suas mãos e acaricio a sua face. Tenho que aproveitar todos estes momentos. Poderão acabar brevemente.

O mote do Presidente

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O Presidente Marcelo já deu o mote. Portugueses, preparem-se para regressar à luta! O que temos vivido nestas ultimas semanas não lhe podemos chamar de luta. Os sofás não são propriamente campos de batalha. Ela começará apenas quando ousadamente colocarmos a chave na fechadura, rodarmos bem lentamente, e abrirmos a porta que nos leva á rua. Aqui sim, começará a luta! A questão é esta! Ainda que nos adaptemos bem  a conviver com as circunstâncias, nomeadamente com o corona vírus, será que ele conviverá bem connosco? Esta é uma pergunta para a qual não temos resposta. A nossa força está unicamente naquele que tem poder para nos livrar de tal epidemia. Se vamos apostar na sorte, então corremos o risco de não ter sorte nenhuma. Se acreditarmos que sozinhos seremos capazes de contornar o obstáculo, então o caso pode tornar-se bastante sério e tornar-se num muro intransponível. O mundo não pode parar para sempre, nós também não. O mundo não pode trilhar para sempre os maus desígnios, nós também não. É hora de banir das nossas mentes o ateísmo. Isto é o factor determinante para ultrapassarmos esta ponte que nos separa da normalidade humana e da eternidade fracassada. No primeiro caso podemos depender uns dos outros, no segundo não dependemos de ninguém.

...

Lá vai o cãozito...

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As correntes que nos prendem são invisíveis, mas seguras. Quando olhamos pela janela e vemos um rafeiro a passear no passeio que circunda o prédio onde vivemos, salivamos. Lá vai o cãozito, todo sorridente, sem complexos e medos, saltitando e soltando umas graçolas que nos fazem invejar a sua despreocupação e a sua sorte. A este o Corona não amedronta. Para este, o futuro é hoje. O agora é o mais motivante e feliz dos momentos caninos. Os carros loucos que varrem as ruas são poucos, e o índice de criminalidade animal baixou significativamente. As chamadas para os canis caíram drasticamente, afinal de contas a maior preocupação da sociedade humana, são os próprios humanos. Para o nosso povo mais idoso que vive isolado fica o desafio. Adopte um cão. Se não tem ninguém a seu lado que em caso de emergência possa ligar para o 112, tente ensinar o seu animal a usar o telemóvel. Afinal do contas o dito não servirá apenas para as selfies. Porém, o mais difícil, será convencer o pobre animal a estar a seu lado sem puder sair á rua. Mas como eles são os melhores amigos do homem, faça um esforço e convença-o. Boa sorte.

A arca

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Nada nem ninguém nos vai parar. O Corona vírus parou-nos! Estes acontecimentos “apocalípticos” geram alguma dúvida e desconforto. Sempre pensamos que poderíamos fazer o que nos dava na gana, e que os ideais de liberdade defenderiam as nossas causas e invasões. E defenderam, até onde conseguiram. O problema é quando outras forças maiores impõem a sua lei, deitando por terra todas as lições aprendidas nas escolas e universidades, fazendo do cavador do campo um verdadeiro sábio de galochas e mangas arregaçadas. Quando Deus mandou Noé fazer a arca para salvar a humanidade, muitos certamente foram os que riram, zombaram e o chamaram de louco. Afinal, quem teria a magnifica ideia de construir uma arca (barco) em cima de uma montanha? A verdade é que a loucura salvou 8 pessoas e uma infinidade de animais, e porventura continuará a salvar outros mais.

Fiquem no sofá

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Para os amantes do cinema em casa, por estes dias não existem outros, fica a dica para um filme que vos irá prender ao sofá do primeiro ao último segundo. Não é uma “super” produção americana, não é um filme de 2020, ainda assim não vão dar por mal empregue os momentos passados em frente ao ecrã. Estava a pensar ir a algum lado? Fique em casa. O filme é “Um Contratempo”, produzido em 2016 pelos nossos vizinhos Espanhóis com o título original “Contratiempo”. Fica aqui também a nossa homenagem a este povo que por esta altura está a sofrer a penosa e árdua tarefa de sobreviver ao ataque cruel e sem precedentes do Corona vírus. A história vai ser difícil de desmontar. Adrian, a personagem central do enredo, acorda num hotel, e encontra sua amante morta coberta de dinheiro. Ele recorre a melhor advogada de defesa, e eles tentam descobrir o que realmente aconteceu na noite anterior. A não perder e disponível no Netflix.

O menino que eu criei - capítulo 3

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Acordo arrepiado numa sala vazia e mórbida. Não sei se estou aqui a apenas algumas horas ou se já se passaram dias. Mas o meu corpo gelado diz-me que alguém se terá esquecido de mim. Não sei porquê, mas não estou importado com isso. Levanto-me, e desço cuidadosamente daquela cama que mais parece uma mesa de um matadouro. O meu corpo contorcido tem dificuldade em responder à minha tentativa de fuga. Avanço com dificuldade e dispo a batina de padeiro. Ainda bem que não há por aqui espelhos, tal o ridículo em que me encontro neste exacto momento. Tapo com as minhas mãos a ferramenta e invado a sala ao lado convicto que encontrarei algo mais ajustado para vestir este meu corpo trémulo e enrugado. Lá estava no canto da sala, uma enorme caixa de papelão carregada de moda morta. Vasculho desesperadamente e lá encontro umas calças maneirinhas e uma camisa axadrezada. Na prateleira atrás da porta encontra-se uma estante branca carregada de calçado. Não sei porquê, mas ainda perdi alguns minutos até me decidir por estas sapatilhas adidas brancas que combinaram na perfeição com a vestidura adquirida. Ainda procurei por entre a farrapada uma gravata que pudesse embelezar o figurim mas não achei. Saí daquela sala, e avancei naturalmente em direção à saída, e acreditem ou não, ninguém notou a minha fuga.

- É o país que temos, ironizei eu.

Circundei o hospital na tentativa de encontrar a minha carripana, mas nem sinal dela. Dei corda aos sapatos, ou melhor, ás sapatilhas e pus-me a caminho. Cheguei aqui abraçado à minha amada e regresso a casa sem holofotes e com a vida arruinada. O percurso faz-se em 15 minutos, mas prevejo um recorde olímpico tal o desespero e inquietude que me domina. Percorro mais ou menos 2 km e dou de caras com a minha carripana encostada à valeta.

- Que terá acontecido? Questiono-me.

Não imaginam vocês o estado deplorável em que se encontra. Dei conta de se tratar da minha viatura porque a sua cor alaranjada sempre me comprometeu. Aproximo-me dela e quase que desfaleço. A frente desaparecera e o infeliz que a tomou de assalto terá ido desta para melhor. O meu entusiasmo por saber o que terá acontecido era nenhum e resolvi prosseguir o derradeiro caminho que me levava de volta ao meu insípido lar. Finalmente cheguei. O portão velho entreaberto diz-me que alguém está cá. Quem será? Entro e vejo ao fundo do quintal a minha vizinha que simpaticamente rega as novidades. Aceno gentilmente, mas ela não responde tal o seu estado de entusiasmo ou distração. Ao aproximar-me da porta de entrada caio em mim. A partir de agora estou por minha conta. Tento gotejar algumas lágrimas, mas nem a tristeza se apodera de mim.  Deito-me no meu sofá vintage cor de escarlate e adormeço sem pestanejar. O meu sono é interrompido com vozes de alguém que se encontra no exterior. Levanto-me de fininho, aproximo-me da janela e com a delicadeza de uma “lady”, afasto ligeiramente a cortina que separa os dois mundos e observo. É o vulto de uma pessoa encadeirada.

 - Mas quem será? Interrogo-me.

Ainda não dera resposta á minha dúvida, já o dito intrometido enfiava a chave na fechadura e preparava-se para abrir a porta. Corri em direção à cave, escondi-me e sosseguei. Não sei porque reagi assim, afinal eu estava na minha casa. Apercebo-me que muitos dos objetos que me olham não fazem parte das minhas memórias. O ousado cadeirante deambula pela casa, ouço-o abrir gavetas, e a mexer em panelas. Questiono-me se durante o tempo que a casa esteve sem viva alma, alguém tomara de assalto o infortunado palácio. Ainda assim, não me mexo, apenas deixo escapar um longo e tímido suspiro. Observo que bem junto de mim se encontra um lote de jornais empilhados. Aproveito para vasculhar, mas a ousadia tornou-se num arrepiante assombro. Faço um reparo.

- Não pode ser!

Mas era. A minha carripana estava na capa do jornal. Não tenho dúvidas, reconheço aquela rapariga a milhas de distância. O estado dela não me comoveu, pois passara por ela antes de aqui chegar. Saboreio todo aquele enredo noticioso e apercebo-me que há uma vítima mortal e dois feridos em estado muito grave. No mesmo dia perdi mulher, filho e a carrinha.  As últimas palavras que consigo ler falam de um verdadeiro milagre. Não percebo, como é que este jornal de ontem parece que tem dois séculos tal o estado deplorável da sua manicure e a quantidade de pó que os reveste. Reflito melhor.

- Este jornal é de hoje! Questiono-me.

Como poderia. Observo atentamente as datas. As dúvidas acumulam-se. Esfolheio os restantes jornais energeticamente afim de encontrar mais informações, mas nada. Ao fundo da arrecadação o equivocado relógio de parede assinala dezasseis horas. A falta de pilhas estava a levar os ponteiros ao arame. Também eles ficaram esquecidos e aguardam melhores dias. Convenço-me que tenho de enfrentar a minha triste realidade. Afinal, tenho que tratar dos funerais e despedir-me daquela que sempre amei e do filho que os meus olhos nunca contemplaram. Saio de fininho pela porta que liga a arrecadação ao quintal das novidades, e serpenteio num ápice o desfiladeiro que me leva à recentemente batizada estrada da morte. O caminho torna-se finito tal a quantidade de pensamentos cruéis que agridem a minha mente. Não consigo parar de fabulizar histórias. Estou praticamente a 500 metros do local onde deparei com a minha Toyota desfeita. Num olhar mais atento vejo a minha carripana a desaparecer em cima de um robusto reboque. Aceno freneticamente, mas em vão.

O menino que eu criei - capítulo 2

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Finalmente chegamos ao hospital. A carripana deixou para trás um rasto de fumo preto tão intenso que o porteiro antevê o aparecimento de D. Sebastião por entre aquele anormal nevoeiro matinal. O Lazu agarra-me pela mão, ajeita a gravata que não trouxe, e arrasta-me freneticamente para o interior do edifício. A chuva ficou lá fora, mas as paredes negras anunciam as obras prometidas que nunca chegaram a avançar. A última vez que aqui estive, foi há dois anos atrás, quando o meu Lazu foi operado ao estômago, devido ao maldito elixir. Bem, que o avisei. Bastava-lhe observar o que acontece com o cabrito todos os anos para perceber que a coisa iria acabar mal. Ele refutou o aviso do doutor e por graçola ainda ofereceu ao anestesista um garrafão do dito veneno. Esbarramos em meia dúzia de utentes que estavam plantados junto à triagem. Como é de costume o Lazu, não cumprimentou ninguém, porém eu ia lançando uns bons dias que não tinham resposta, talvez devido à nossa entrada a matar e a atropelar. Não sei bem como, quando dei por mim já estava deitada numa maca que se encontrava estacionada junto ao corredor mais interior. Acho que a triagem foi feita pelo meu marido, porque a pulseira que me colocaram no pulso era especial, qual arco-íris, tinha todas as cores. Sorri, senti-me feliz e abençoada. Ele era um pouco rude, mas sempre admirei a sua naturalidade imprópria e destemida. O homem não olhava a meios para atingir os fins. Mas eu amava-o do jeito que ele era, se tivesse tempo contava-vos o que ele fez ao cão do vizinho, por este lhe ter fanado duas galinhas e três patos na noite de vinte e quatro de dezembro do ano passado. Não há certezas, mas ponho a minha mão no fogo como ele teve alguma coisa a ver com o suicídio do pobre animal. Ele e o André, o tal vizinho, não se falam desde esse dia. Bem, quase ninguém dirige a palavra ao meu Lazu. Eu devo ser das poucas, a verdade é que ainda não tive motivos sérios para o abandonar. Pelo contrário, se algo correr mal e eu for desta para melhor, acho que ele é bem capaz de cometer o mesmo ultraje que o pobre animal. As dores começaram a intensificar, creio que o meu armagedon está a chegar. Não sei porquê, mas o médico mandou-me de urgência para o bloco. Por entre a porta semiaberta, consigo ver o Lazu. Coitado do homem, transpira como um burro e continua a endireitar a maldita gravata de que se esquecera em casa. Não sei se estou mais aflita com ele se mais preocupada comigo. Porquê este alarido todo? Não me digam que vou perder outra criança?

- O que se passa com ela? – grita Lazu.

- Sim, grita. É o termo correto.

- Aguarde lá fora!  Resmunga a enfermeira de serviço.

Passam apenas cinco minutos que parecem infinitos. Lazu que nunca foi homem de tomar café, despachou dois e se fosse possível fumar naquele corredor lotado de camas, bem que virava fumador compulsivo. Os minutos passaram, as horas passaram. Sim, terminou tudo para mim.

O médico corajosamente tudo faz para salvá-la da morte. A bata branca realça a palidez do homem, enquanto que as enfermeiras atarefadamente apoiam toda aquela novela. A espera torna-se desesperante e aquele silêncio torna-se intolerável. Lazu, destemido avança pelo corredor sem destino, e tenta obter resposta para as suas intuições. O seu cérebro manipula centenas de imagens, todas elas difíceis de processar. A porta do consultório se abre, uma enfermeira sai, e curiosamente nem dá pela presença dele. O momento é delicado, e quando se preparava para invadir o consultório do doutor, ouve palavras que lhe travaram o andar e quem sabe a vida.

- Vamos perder os dois. Afirma o médico.

- Fizemos o que estava ao nosso alcance. Desdramatizou a enfermeira.

O choque foi tal, que Lazu cai sobre o chão provocando um estrondo momentâneo. O seu estado de loucura deve ter excedido o normal para o comum dos mortais, pois os seus gemidos e a sua raiva era tal, que se fizeram ouvir certamente por todos os cantos daquele hospital. O sofrimento foi tanto que o pobre homem desmaiou.

Habilidade cinematográfica

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A oportunidade faz a ocasião. Confinados que estamos aos recursos familiares, tivemos por estes dias de viver a Páscoa dentro da nossa habitação de portas bem cerradas. Diria mais. Tivemos que a viver dentro de nós próprios. Quando saí-mos do casulo, á nossa espera estava uma panóplia de filmes e séries alinhadas ao tema. Quero-vos chamar a atenção, caso o permitais, para o filme “O Filho de Deus”, cujo actor em destaque é o nosso compatriota Diogo Morgado. Muitos entendidos reclamam de alguns erros históricos produzidos no contexto expressionista apresentado, tal como: O facto de os Romanos nunca terem utilizado os escravos para fazerem navegar os seus galeões. Os historiadores até podem estar preocupados com esta incorrecção, mas eu não. Outro mais abominável me fez cerrar os dentes e quase trincar a língua. Porventura o mais enfático, manipulado e aldrabado. Enquanto o realizador sensibilizava os espectadores com a melancolia da acção, os mais incautos deixavam cair umas quantas lágrimas próprias do envolvimento visual e sonoro, sem contudo darem um murro na mesa de revolta e desilusão. Este Jesus enfatizado no ecrã de cinema nem sempre foi o Jesus Verdadeiro. Infelizmente. Como poderia Jesus ter atirado a pedra ao chão, quando lhe apresentaram a mulher adúltera, se ele não tinha nenhuma pedra em sua mão?

Sabemos porquê. Porque a pedra é símbolo de pecado e muitos querem e continuam a venerar um Cristo pecador. Este Cristo “pedreiro” não salvará ninguém.

 (Bíblia)

E na lei nos mandou Moisés que as tais sejam apedrejadas. Tu, pois, que dizes?
Isto diziam eles, tentando-o, para que tivessem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia com o dedo na terra.
E, como insistissem, perguntando-lhe, endireitou-se, e disse-lhes: Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela.
E, tornando a inclinar-se, escrevia na terra.
Quando ouviram isto, redargüidos da consciência, saíram um a um, a começar pelos mais velhos até aos últimos; ficou só Jesus e a mulher que estava no meio.
E, endireitando-se Jesus, e não vendo ninguém mais do que a mulher, disse-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou?
E ela disse: Ninguém, Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais.

João 8:5-11

 

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